1 enero 2009
Famílias ocupantes de 1,5 mil ha em Jaru, no Estado de Rondônia, devem colher cinco mil sacos de milho. Mas temem despejo iminente.
EPAMINONDAS HENK Agencia Amazonia de Noticias
JARU, RO – Às vésperas da passagem do ano, o clima em Canaã é de expectativa. Camponeses acampados na Linha C-40, a 50 quilômetros de Jaru, esperam o iminente despejo judicial. Eles sabem que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ainda não possui um projeto para assentá-los na área de 1,5 hectares, um antigo pasto e capoeirão agora transformado em área produtiva. Jaru fica a cerca de 300 quilômetros de Porto Velho.
Apontado pelo Governo de Rondônia como proprietário da área, o sr. João Arnaldo Tucci não teria cumprido um contrato de aluguel de terras públicas firmado com o Incra, mesmo obtendo financiamento público. Em conseqüência de despejos anteriores, dois camponeses – um era menor na época – foram torturados por policiais militares de Ariquemes, em julho de 2006.
Galinhas e porcos garantem subsistência com arroz, milho e cacau.
Num relato transmitido esta semana à Agência Amazônia e também mostrado no site “Resistência
Camponesa” (* link no final desta matéria), representantes das 118 famílias de acampados afirmam ter plantado nos lotes cortados por eles mesmos, o suficiente para colher cinco mil sacos de milho no início de 2009. Foi uma reforma agrária às avessas e na marra. “O povo está produzindo arroz, feijão, café, cacau, banana e várias outras frutas e legumes”, diz o relato. Também há criações de galinhas e porcos na área ocupada. Várias famílias já estão morando em casas de tábuas e dezenas de crianças estão em idade escolar, mas não freqüentam escolas. Elas não existem.
Famílias já foram despejadas outras vezes
Truculência
Camponeses vizinhos reconhecem que, se não fosse pelos moradores nas Áreas Canaã e Raio do Sol, o ônibus da linha C-19 não estaria mais circulando diariamente. Não é o bastante para que eles afastem o fantasma do despejo. Dizem que João Tucci “já financiou vários despejos em Canaã, quando policiais militares praticaram todo tipo de truculência”. O resultado disso foi a queima de barracos, perdas de cães e 200 galinhas poedeiras. “Fomos humilhados – homens, mulheres e crianças – e fomos obrigados a passar fome, sede, e fomos fotografados na delegacia”, acrescentam.
Relembram da violência contra Nilton de Souza – menor na ocasião – e Marcelo do Carmo Dias, há dois anos. “Eles foram presos e espancados por policiais militares de Ariquemes, amarrados na carroceria de uma viatura por horas, debaixo de sol quente, enquanto os policiais almoçavam". "Nilton levou choques elétricos e ficou detido no Conselho Tutelar de Ariquemes por dois dias, de onde foi liberado sem dinheiro, só com um cafezinho no estômago. Só foi encontrado por seus familiares na BR-364, depois de ter andado cerca de 40 Km, voltando para Jaru. Marcelo teve três costelas quebradas e ficou preso vários dias sem atendimento médico. Os policiais destruíram seus exames de raio-X e quebraram sua moto para dizer que eles se machucaram ao cair dela”, denunciam.
(*) Acesse Resistência Camponesa ● Acampados denunciam violência em Rondônia
No rastro da violência, polícia e Incrasão acusados em Nova Mamoré
► Grileiros e jagunços atacam assentamentos feitos pelo Incra em Nova Mamoré, a 240 km de Porto
Velho, capital rondoniense. Munidos de documentos falsos, expulsam os agricultores.
►Madeireiros mantêm entre 50 e 100 metros de floresta nas margens de rodovias para dar a idéia de que a mata está intocada. No entanto, abrem clareiras dentro. Isso ocorreu ao longo da BR-421 (antiga Rodovia da Cassiterita), que liga Campo Novo a Nova Mamoré, saindo do oeste do Estado e cortando todo o Parque Estadual de Guajará-Mirim.
►Corte seletivo: em vez de fazer a derrubada desenfreadamente, os madeireiros escolhem as árvores. O Ibama constatou isso na Ponta do Karipuna, na reserva indígena de mesmo nome, e também na Floresta Nacional Jamari (a primeira experiência do País), na divisa com o município de Cujubim.
►Principais latifundiários da região, segundo denúncias de camponeses e de movimentos de sem-
terra à polícia e a parlamentares: Carlos Schumann, que possui propriedades em Vilhena e Chupinguaia (sul do estado) e serrarias na região de Nova Mamoré. A Fazenda Schumann tem cerca de 42 mil ha.
►Geraldo da "Condor", proprietário de uma das maiores distribuidoras de produtos alimentícios do estado. Suas áreas totalizam cerca de 364 mil ha.
► Pistoleiros que atuam na região: Diamantino e Donizete Moage. O sargento Alves, da PM em Ji-Paraná, teria grilado mais de 300 alqueires, dos quais saíram camponeses da Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Com ele atuam o soldado Sílvio da PM ,o agente da polícia civil Rubão e os pistoleiros Bigode e Dionísio, todos moradores em Buritis.
►Segundo denúncias da LCP à Câmara dos Deputados, esses policiais e jagunços usam a tortura, o espancamento e o afogamento contra os camponeses. São acusados de matar e fazer desaparecer o corpo do jovem conhecido por Edmilson.
►O Incra é acusado de favorecer os latifundiários, vendendo áreas da União que se destinariam à reforma agrária. Seriam oito as áreas vendidas pelo ex-representante da Superintendência Estadual em Porto Velho, Paulo Brandão. 
► Um camponês idoso conhecido por Maninho foi abordado por um grupo de homens armados, à beira do rio Jaci, onde foi espancado a golpe de coronhas. Teve o pé e braço decepados, foi castrado e em seguida afogado no rio. Outros três companheiros dele desapareceram recentemente. Suspeita-se que foram assassinados e tiveram seus corpos queimados.
►Os camponeses Gaúcho da Pedra, Benedito e outros 12 que moram na região, por se recusarem a abandonar suas terras foram torturados e humilhados por pistoleiros.
► No dia 27 de novembro de 2006, quatro camponeses foram cercados por jagunços numa emboscada supostamente montada por Antônio Corrêa. Três escaparam, mas Ozéias Martins de Souza (foto acima) foi feito refém e conduzido até uma estrada próxima. Ali o eliminaram com dezenas de tiros à queima-roupa. Tentaram queimar o corpo e também a sua moto. A Polícia Militar foi acionada, mas teria se recusado a registrar a ocorrência.
►O Comando de Operações Especiais da PM foi à região apurar a suposta ligação de camponeses com o assassinato de um gerente da Fazenda Schumann. Usaram helicópteros e atemorizaram famílias em cidades e povoados.